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    A renovação das cotas de importação com isenção tarifária para veículos desmontados e semidesmontados (CKD e SKD) colocou em evidência, ao longo de 2025 e 2026, uma das discussões mais relevantes para o futuro da indústria automotiva brasileira. Sob a perspectiva do Governo Federal, a medida busca acelerar investimentos produtivos, ampliar a oferta de veículos eletrificados e fortalecer a inserção do Brasil nas novas cadeias globais da mobilidade sustentável. A decisão da Câmara de Comércio Exterior (Camex) de manter temporariamente benefícios para a importação desses kits foi defendida como um instrumento para atrair fabricantes internacionais, estimular a concorrência e viabilizar a instalação de novas operações industriais no país em um momento de transformação tecnológica sem precedentes para o setor automotivo.

    A posição das montadoras representadas pela Anfavea, entretanto, segue em direção distinta. Em seu Manifesto sobre CKD e SKD e em manifestações públicas realizadas desde 2025, a entidade argumenta que incentivos prolongados para kits importados podem desestimular a produção local de componentes e comprometer a competitividade das fábricas já instaladas no Brasil. Segundo estudos divulgados pela associação, a substituição da produção nacional por operações de montagem baseadas predominantemente em componentes importados poderia resultar na eliminação de dezenas de milhares de empregos diretos, além de impactos negativos sobre a arrecadação tributária, as exportações e os investimentos produtivos. Para a entidade, o debate não se restringe à importação de veículos desmontados, mas envolve a preservação de uma cadeia industrial construída ao longo de décadas e responsável por elevados níveis de agregação de valor, engenharia e desenvolvimento tecnológico no país.

    Nesse contexto, os efeitos potenciais sobre a indústria de autopeças tornaram-se um dos pontos centrais da discussão. O Sindipeças e a Abipeças manifestaram preocupação com a ampliação dos incentivos aos regimes CKD e SKD, defendendo que a transição para a eletromobilidade deve ocorrer por meio de mecanismos que fortaleçam a produção local e estimulem a nacionalização progressiva de componentes. Na avaliação das entidades, a expansão da montagem baseada em kits importados pode reduzir significativamente a demanda por fornecedores nacionais, afetando fabricantes de sistemas, componentes, ferramentarias, empresas de engenharia e diversos elos da cadeia produtiva. Além dos impactos sobre o emprego e a arrecadação, as entidades alertam que a manutenção ou ampliação desses incentivos pode levar à suspensão ou ao adiamento de investimentos planejados pelo setor de autopeças, especialmente aqueles voltados ao desenvolvimento de novas tecnologias e às rotas de descarbonização incentivadas por programas governamentais, como o Mover.

    Segundo o setor, a previsibilidade regulatória é fundamental para a tomada de decisões de investimento, e a ampliação de benefícios à importação de kits CKD e SKD poderia agravar problemas de competitividade, desestimular a modernização industrial e enfraquecer a inserção das empresas brasileiras nas cadeias globais de valor. Diante disso, as entidades defendem que a abertura do mercado seja acompanhada de condições equilibradas de concorrência e de instrumentos capazes de preservar uma cadeia de fornecedores que reúne centenas de empresas, gera milhares de empregos qualificados e desempenha papel estratégico na inovação e no desenvolvimento tecnológico nacional.

    Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a chegada de novos fabricantes e investimentos pode gerar oportunidades relevantes para ambos os setores. Historicamente, diversos projetos industriais iniciaram suas operações por meio de modelos CKD ou SKD antes de avançarem para etapas mais complexas de nacionalização. A atração de novas marcas, especialmente no segmento de veículos eletrificados, pode ampliar a escala produtiva, estimular a concorrência e abrir novas oportunidades para fornecedores locais. O desafio apontado por especialistas e representantes da indústria consiste justamente em criar um ambiente regulatório capaz de transformar investimentos iniciais em produção efetivamente nacionalizada, com metas progressivas de conteúdo local, desenvolvimento tecnológico e integração dos fornecedores brasileiros às cadeias globais de suprimentos.

    Enfim, a controvérsia em torno dos regimes CKD e SKD revela um tema que vai além da política tarifária: trata-se da definição do modelo de industrialização que o Brasil pretende adotar na transição para a nova era da mobilidade. De um lado, existe a oportunidade de atrair investimentos, acelerar a eletrificação da frota e ampliar a presença de novos fabricantes. De outro, permanece o desafio de preservar a capacidade produtiva nacional, os empregos qualificados e a competitividade da indústria de autopeças, considerada um dos pilares da manufatura brasileira. Em 2026 e nos próximos anos, o sucesso dessa estratégia dependerá da construção de políticas capazes de equilibrar abertura e desenvolvimento industrial, garantindo que a modernização do setor automotivo resulte não apenas em veículos montados no país, mas em uma cadeia produtiva cada vez mais inovadora, integrada e competitiva.

    Analista Responsável Thais Virga.